RN desperdiça quase um quarto da energia renovável gerada em 2026 por limitações no sistema elétrico

Por redacao@rd24.com.br | 23/07/2026 10:44

O Rio Grande do Norte registrou a maior perda proporcional de energia renovável do Nordeste no acumulado de 2026. Entre janeiro e 20 de julho, 23,2% da capacidade de geração eólica e solar do estado foi limitada pelo chamado curtailment, mecanismo utilizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para equilibrar o sistema diante de gargalos na transmissão e do excesso de oferta de energia.

O percentual registrado no estado supera a média nacional, que é de 19,1%. Na prática, isso significa que quase um quarto da energia renovável que poderia ser produzida no RN deixou de ser aproveitada devido às restrições da infraestrutura elétrica.

No período analisado, o estado teve capacidade média de geração de 4.091 MW, dos quais 951 MW médios foram cortados. As usinas eólicas concentraram as maiores perdas, com 23,9% da geração limitada, equivalente a 843 MW médios. Já as usinas solares tiveram cortes de 19,2%, totalizando 108 MW médios.

Em nível nacional, o cenário é diferente. As usinas solares lideram as restrições de geração no Brasil, com 23%, enquanto as eólicas registram 17,5%. Ao todo, dos 18.483 MW médios de potencial renovável no país, 3.530 MW médios sofreram cortes.

Entre os estados nordestinos, o Rio Grande do Norte aparece no topo do ranking de perdas proporcionais, seguido por Ceará (22,3%), Bahia (19,6%), Pernambuco (17,6%), Piauí (14,7%), Maranhão (13,3%) e Paraíba (12%).

Representantes do setor de energias renováveis demonstram preocupação com o cenário. O presidente da Comissão Temática de Energias Renováveis (COERE) da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), Sérgio Azevedo, classificou a situação como “gravíssima”.

Segundo ele, o elevado índice de cortes representa perda de receitas, redução da arrecadação, paralisação de investimentos e ameaça à cadeia produtiva de energia eólica e solar no estado.

O presidente da Associação Potiguar de Energias Renováveis (Aper), Williman Oliveira, afirmou que limitar mais de 23% da energia renovável produzida no RN reduz receitas dos empreendedores, gera insegurança para novos investidores e desperdiça energia limpa que poderia abastecer consumidores e fortalecer a economia.

Para Lorena Roosevelt, gerente do Polo Sebrae de Energias Renováveis, houve avanços na regulamentação, no planejamento da expansão das linhas de transmissão e nas discussões sobre armazenamento de energia. No entanto, ela avalia que essas medidas ainda não acompanham o ritmo de crescimento da geração renovável.

Já o presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, ressaltou que a ampliação da transmissão e os futuros leilões de baterias exigem tempo para produzir resultados. Ele citou como avanço a publicação da Portaria MME nº 140/2026, que estabelece procedimentos para compensar prejuízos financeiros causados pelos cortes de geração entre 2023 e 2025, mas defendeu soluções permanentes e maior prioridade às fontes renováveis.

Dados da Agência Internacional de Energia Renovável apontam que, em 2025, as fontes renováveis evitaram gastos estimados em 480 bilhões de dólares com combustíveis fósseis no mundo. No Brasil, a economia alcançou R$ 32,4 bilhões, segundo o levantamento.

O diretor do Senai-RN e do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), Rodrigo Mello, afirmou que os cortes frequentes acabam afastando investidores e contribuem para a ausência de novos parques de geração centralizada em construção no estado.

Em nota, o Operador Nacional do Sistema Elétrico informou que o curtailment é uma realidade estrutural em países com elevada participação de fontes renováveis, sendo necessário administrar excedentes de geração em determinados períodos. Segundo o órgão, entre as medidas em desenvolvimento para reduzir as restrições estão a implantação de sistemas de armazenamento em baterias, o fortalecimento da infraestrutura de transmissão e a atração de novas cargas eletrointensivas, como data centers.

Armazenamento de energia é apontado como solução

Os sistemas de armazenamento em baterias (BESS) são considerados pelo setor uma das principais alternativas para reduzir os impactos do curtailment. Em 2026, o Rio Grande do Norte regulamentou o licenciamento ambiental para essa tecnologia e há previsão de realização de leilões específicos para armazenamento.

Sérgio Azevedo defende que o estado avance na expansão das linhas de transmissão, na instalação de baterias, na atração de grandes consumidores de energia e no ressarcimento das empresas pela energia que deixaram de fornecer devido aos cortes.

Segundo ele, o RN também precisa ampliar o consumo local da energia produzida, atraindo empreendimentos como data centers, produção de hidrogênio, indústrias eletrointensivas e atividades de mineração com beneficiamento local.

O Ministério de Minas e Energia informou, por meio de nota, que publicou portaria com as diretrizes para os dois primeiros Leilões de Reserva de Capacidade na forma de armazenamento, previstos para os dias 2 e 4 de dezembro. A pasta também afirmou que trabalha em medidas para reduzir os cortes de geração, incluindo reforços na infraestrutura de transmissão e a regulamentação da compensação financeira para os empreendimentos afetados.

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